Mesmo em tempos de redes sociais saturadas de informações a respeito, o caminho para se tornar comissária de bordo ainda parece ser um mistério para a maioria das pessoas. A minha trajetória para chegar aqui foi um tanto quanto inconvencional se comparada com à da maioria dos meus colegas, uma vez que foi um tropeço que me fez desviar da rota em que estava e chegar ao meu destino.
Mas não vou mentir: para quem realmente sonha com essa profissão não recomendo contar com a sorte ou com o acaso para chegar lá porque entre o sonho e a realidade, há um percurso longo, complexo e completamente diferente dependendo de onde você vive — ou de onde você pretende voar.
A pergunta que mais recebo nas é: “Camila, como eu faço para virar comissária de bordo?” E a minha resposta é sempre a mesma: Depende.
Depende de onde você mora, do seu passaporte, do seu nível de inglês (e outros idiomas), da sua idade, do seu corpo, da sua história… A aviação pode até parecer universal em alguns aspectos, mas no campo burocrático ela é regulada por leis nacionais, normas específicas e até mesmo por contextos culturais. Então hoje eu vou te contar o que muda (e o que continua igual) quando o assunto é entrar para essa profissão nos diferentes cantos do mundo.
Brasil
Até pouco tempo atrás, a carreira de um comissário de bordo no Brasil começava, na prática, com um curso específico regulamentado pela ANAC. Diferente de muitos países, era necessário se matricular em uma escola homologada, cumprir uma carga horária teórica e prática, passar por avaliações e conquistar o tão sonhado CCT (Certificado de Conhecimento Teórico).
Hoje, esse cenário mudou. O curso de comissário e a prova teórica da ANAC deixaram de ser requisitos obrigatórios por regulamentação. Ainda assim, essa etapa continua sendo uma grande vantagem e um diferencial relevante nos processos seletivos, já que muitas companhias valorizam candidatos que chegam com uma base prévia de conhecimento.
O processo é caro. E longo. E não garante emprego no fim. Entre a conquista do CCT e a contratação por uma cia aérea podem correr anos de espera. O salário não é tão alto como em outros países e a escala é puxada, mas uma coisa é certa: quem escolhe este caminho o faz, acima de tudo, por amor à aviação.
A aviação brasileira também exige resistência. É um mercado instável, muito dependente de fatores econômicos e políticos. E, nos bastidores, ainda carrega certos traços de hierarquia que são difíceis de ignorar. Ao mesmo tempo, é um dos poucos lugares onde você pode entrar sem falar quatro línguas ou ter passaporte europeu e, com o tempo, crescer na carreira.
Estados Unidos
Enquanto no Brasil a formação é requisito básico, nos Estados Unidos a lógica é completamente outra. Por lá, você não precisa fazer curso nenhum antes de ser contratada. As companhias treinam os candidatos do zero — mas isso não significa que seja fácil entrar.
Primeiro, você precisa ter cidadania americana ou green card. Depois, precisa aplicar diretamente para as vagas e torcer para passar pelas etapas de seleção (que incluem dinâmicas, entrevistas, e uma investigação de antecedentes criminais bastante rigorosa). E, se for aprovada, aí sim começa o treinamento — que é denso, intenso e eliminatório.
Nos EUA, ser comissária de bordo é mais parecido com ser uma técnica de segurança aérea com habilidades sociais do que com a imagem que vendem nos filmes. As escalas são longas, a remuneração no início é baixa e a progressão depende de tempo de casa. Mas para quem tem disciplina, é um ótimo caminho de estabilidade, especialmente a longo prazo.
Europa
Voar na Europa significa, antes de tudo, lidar com o peso da regulamentação da EASA — o órgão europeu que padroniza a segurança e a formação na aviação civil. Por aqui o processo seletivo é bastante exigente e a concorrência altíssima, mas as companhias oferecem o treinamento internamente depois da contratação.
Falar inglês fluentemente é o mínimo exigido por praticamente todas as empresas. Ter passaporte europeu ou autorização de trabalho é um ponto obrigatório. Conhecer outras línguas, um diferencial forte.
A Europa valoriza experiência, mas também aparência, comunicação, postura e adaptabilidade. O padrão é alto — e não é incomum que uma seleção para uma low cost tenha centenas de candidatos para poucas vagas.
Oriente Médio
A aviação no Oriente Médio costuma ser vista como sinônimo de luxo. Companhias como Emirates, Qatar Airways e Etihad são conhecidas mundialmente pelo nível de serviço impecável — e por seus processos seletivos extremamente seletivos. Aqui, a imagem importa. E muito.
Você não precisa ter formação prévia, mas precisa atender a uma série de pré-requisitos estéticos e comportamentais: altura mínima, postura, pele sem tatuagens visíveis, cabelo sempre preso, unhas bem feitas. O inglês precisa ser fluente e a apresentação pessoal, impecável.
O contrato normalmente inclui moradia em apartamento compartilhado, uniforme completo, transporte para o aeroporto e inúmeros benefícios que tornam o salário muito atrativo.
Apesar de todas as vantagens, trabalhar para estas empresas vem com série de regras que pesam sobre vida pessoal. Por isso, muita gente entra na aviação por essa porta, junta dinheiro, conhece o mundo e depois segue outro caminho.
Então… Onde é melhor? Essa resposta eh muito pessoal. Para mim, sinceramente, é na Europa. Para você vai depender dos seus objetivos, expectativas e possibilidades, mas uma coisa eu posso garantir: independentemente da localização geográfica da sua base contratual, trabalhar nas alturas tem um poder transformador e essa experiência não apenas vai mudar a forma como você vê o mundo, mas como você se enxerga dentro dele. Para mim, essa é a maior riqueza da nossa profissão.