“Você é comissária de bordo?”

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“Você é comissária de bordo?”

Muitas pessoas ainda pensam que o trabalho dos comissários de bordo consiste em servir cafezinho no avião, mas isso não poderia estar mais longe da realidade. A nossa principal função é, na verdade, garantir a segurança dos passageiros e o cafezinho não passa de uma cortesia que oferecemos quando tudo corre bem durante o voo.

Assim como eu, muitos colegas de profissão ao redor do mundo escutam rotineiramente comentários que transbordam a falta de conhecimento daqueles que não trabalham ou não são próximos de alguém que trabalhe na aviação.

Muitas vezes esses comentários são até mesmo um pouco maliciosos ou provocativos e confesso que nem sempre estou no estado de espírito favorável para levar na esportiva e sorrir fazendo cara de paisagem. Claro que aqui estou me referindo apenas àquelas pessoas que – inconscientemente, espero – agem assim, mas com o passar do tempo percebi que encarar esses comentários apenas com irritação não ajudava ninguém e então decidi experimentar uma nova abordagem.

Alguns anos atrás, fui à uma festa onde conheceria os amigos de infância do meu namorado – que estavam muito curiosos para me me ver pela primeira vez – e não demorou muito para que os primeiros comentários, piadas e perguntas inconvenientes surgissem na pauta da conversa tão logo a minha profissão foi mencionada.

Lá estava eu novamente naquela situação delicada e da qual sempre fugia. A diferença foi que dessa vez decidi enfrentá-la testando uma nova estratégia. Respirei fundo e, ao invés de simplesmente contra-argumentar de forma emotiva ou – como costumava sempre fazer – inventar uma desculpa qualquer para me ver livre daquela conversa, resolvi me manter firme e explicar tudo com paciência sem reagir na defensiva ou ser sarcástica quando alguém fazia um comentário ignorante e errado sobre a minha rotina, o meu modo de vida ou, pior, o meu trabalho.

Contrariando minhas próprias expectativas, fazer isso não foi tão difícil como eu imaginava e em questão de minutos me vi diante de um grupo de pessoas sinceramente interessadas em cada detalhe das histórias que eu contava.

Nesta noite descobri que alguns fatos óbvios para mim, para eles eram fascinantes  e usei a curiosidade alheia como combustível para um diálogo construtivo e surpreendentemente gratificante.

Essa abertura ao diálogo tirou um peso enorme das minhas costas e me mostrou que, apesar de a maioria das pessoas não saberem muito sobre a minha profissão, existe uma curiosidade imensa a respeito dela.

O único empecilho é encontrar o tom certo para que essa conversa seja possível e eu já adianto àqueles colegas que talvez se inspirem em tentar fazer isso também: desconstruir estereótipos nunca será uma tarefa fácil, mas é possível.

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