O que fazer se você tem medo de viajar de avião

Medo de voar

O que fazer se você tem medo de viajar de avião

Segundo pesquisa do IBOPE, 42% dos brasileiros declaram ter algum grau de medo de voar e este número está bem acima da média mundial estimada em torno de 30%. Os critérios variam entre as pesquisas e parte da diferença vem do que cada estudo entende por medo, mas a ordem de grandeza é consistente: trata-se de um fenômeno disseminado, que vai do desconforto leve, até a aerofobia clínica, definida como fobia específica e acompanhada de sintomas físicos como sudorese, taquicardia, náusea e ataques de pânico.

Se você faz parte desta estatística, este artigo é para você:

Reconheça o gatilho e respire

Tente fazer o exercício de mapear o que dispara o seu medo. Pode ser uma cena de queda em filme, uma notícia recente sobre algum acidente regional, a lembrança de um pouso difícil em Congonhas no meio da chuva, a imagem do próprio aeroporto, sons estranhos durante o voo, a vista das nuvens pela janela…

Quando o gatilho aparece, exercícios de respiração podem te ajudar a interromper a escalada antes que o corpo entre em hiperventilação, mas caso seja tarde demais, o box breathing é a técnica que nós comissários mais usamos para ajudar passageiros e você mesmo pode fazer sozinho na poltrona. Basta pegar um saco (de papel ou de plástico) e respirar lentamente dentro dele por alguns minutos. Isso funciona porque a hiperventilação acontece quando respiramos rápido demais por conta do nervosismo e acabamos eliminando mais gás carbônico que oxigênio.

Informe-se

O psicoterapeuta e ex-piloto Tom Bunn descreve o voo como uma situação de no-control, no-escape: o passageiro não pode pilotar e não pode descer no meio do caminho e essa dupla impossibilidade e sensação de falta de controle é o que torna a experiência assustadora para algumas pessoas.

Nesse caso, se informar sobre o funcionamento da aeronave, como a tripulação é treinada e o que acontece em cada fase do voo, reduz a urgência de fugir, porque transforma o desconhecido em algo razoavelmente previsível.

Daí a popularidade crescente de conteúdos explicativos feitos por tripulantes. O podcast americano Dial a Pilot, conduzido por pilotos comerciais, foi pensado para passageiros nervosos e explica cada parte da operação. Além disso, inúmeros tripulantes (inclusive eu mesma) mantêm perfis em redes sociais onde compartilham sua rotina de voos e há quem encontre nesse tipo de material mais alívio do que em qualquer técnica de relaxamento.

Estes aplicativos podem te ajudar

O som de um avião é parte do gatilho, sobretudo para quem voa pouco e estranha cada estalo. O aplicativo Flight Buddy reúne áudios reais de motor sendo ligado, bagagem sendo carregada no porão, trem de pouso recolhendo logo após a decolagem, flaps se ajustando antes do pouso. Acredite: ouvir esses sons fora do contexto do voo, seja em casa alguns dias antes da viagem ou até mesmo no caminho para o aeroporto, reduz a chance de eles assustarem em situação real.

Caso seja do time que tem pavor de turbulência, o Turbli é o aplicativo certo para você: ele permite digitar o número do voo e ver o trajeto com áreas de instabilidade marcadas. Mas atenção: embora para alguns passageiros antecipar a turbulência diminua o susto e devolva alguma sensação de controle, para outros, saber que ela vem só intensifica a ansiedade nas horas anteriores ao embarque, então convém testar antes de incorporar o aplicativo à sua rotina de pré-voo.

Calm e Headspace, mais conhecidos, oferecem meditações guiadas curtas em português, úteis tanto na sala de embarque quanto durante o voo e têm a vantagem de poderem ser baixadas para uso offline.

Conforto acima de tudo

Às vezes focamos tanto em nosso estado emocional por conta do medo que deixamos o conforto em segundo plano, mas quando estamos nos sentindo bem fisicamente, fica mais fácil lidar com as dificuldades causadas pelo medo. Investir em um “kit conforto” pode fazer toda a diferença na sua experiência. Escolha uma roupa confortável para a viagem, leve um livro, músicas, palavras cruzadas, sua meia preferida, um perfume que te acalme, um ursinho de pelúcia… Enfim, invista no seu bem-estar e garanto que isso vai te deixar mais calmo.

Uma das minhas descobertas favoritas dos últimos tempos são as almofadas e cobertores com peso que pressionam o tórax e ativam mecanismos associados à redução da ansiedade. Realmente funciona!

Ajuda profissional

A intervenção mais consistente para aerofobia continua sendo a terapia cognitivo-comportamental com exposição gradual, conduzida por profissional treinado. O paciente é apresentado a fotos, vídeos, sons e, eventualmente, voos reais, sempre combinados com técnicas de regulação emocional aprendidas em consultório. Jonathan Bricker, psicólogo da Universidade de Washington que pesquisa o tema há 25 anos, afirma que entre 70% e 90% dos participantes conseguem voar ao fim do processo e a maioria relata redução significativa da ansiedade.

A terapia exige tempo e investimento o que, obviamente, limita seu alcance prático, então para quem voa raramente ou está diante de uma única viagem urgente, talvez não seja a primeira escolha. Para quem precisa voar com alguma frequência, a trabalho ou para visitar família espalhada pelo mundo, costuma compensar bastante fazer este investimento.

Zona de perigo: medicamento & álcool

Aqui o terreno fica mais delicado e eu vou fazer coro com o conselho médico que é praticamente unânime em desaconselhar a automedicação antes e durante um voo. Ansiolíticos vendidos no Brasil com receita controlada podem até funcionar no curto prazo, porém doses inadequadas podem causar sono tão profundo que impedem o passageiro de se movimentar na cabine, aumentando o risco de trombose venosa em trechos de mais de seis ou sete horas.

Sem contar que, em caso de emergência, passageiros alcoolizados ou automedicados têm consideravelmente menos chance de sobreviver umas vez que seus reflexos e sua mobilidade estarão limitados. Pense nisso.

O álcool é a alternativa popular e de longe a que eu menos recomendo (aliás, nao recomendo de forma alguma).

Estudo publicado em junho mostrou que beber durante voos longos eleva a frequência cardíaca e reduz consideravelmente a saturação de oxigênio no sangue na cabine pressurizada, onde o ar já é mais rarefeito. Além disso, o álcool piora a ansiedade embora pareça acalmar nos primeiros minutos.

Quem, como eu, trabalha na cabine reconhece o padrão de longe: o passageiro que pede a segunda ou terceira taça de vinho tende a dormir mal, acordar agitado e desembarcar em um estado muitíssimo pior do que entrou (sim, nós observamos vocês).

Depois de tudo isso, ainda é importante frisar:

  • Nenhuma técnica isolada resolve a aerofobia para todo mundo.
  • Informação sobre como o voo funciona ajuda alguns passageiros, sobretudo os de perfil mais racional, que ficam aliviados ao entender redundâncias e protocolos.
  • Exercícios de respiração reduzem a escalada da crise no momentos de pânico.
  • A terapia de exposição com profissional, embora exija tempo e investimento financeiro, segue tendo o melhor histórico documentado em estudos controlados.
  • A combinação de duas ou três abordagens, ajustada caso a caso e testada em voos reais, costuma ser mais eficaz do que apostar em uma solução única que prometa resolver tudo de uma vez.​​​​​​​​​​​​​​​​

Espero ter ajudado!

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