A pergunta me chegou de uma leitora na semana passada, mas já tinha chegado antes — muitas e muitas vezes, em variações quase sempre idênticas. Às vezes é uma mulher de trinta e cinco anos cansada do escritório. Às vezes é uma de cinquenta e dois que criou os filhos e, agora que eles saíram de casa, quer alguma coisa que seja só dela. Às vezes é alguém de cinquenta que me escreve pedindo desculpas antes mesmo de formular a pergunta, como se estivesse me fazendo perder tempo por estar cogitando isso a essa altura da vida.
Uma coisa que eu sempre noto nessas mensagens é que a pergunta nunca é realmente sobre idade. Quando alguém me pergunta se ainda dá tempo de virar comissária depois dos trinta, dos quarenta, dos cinquenta, o que essa pessoa está querendo saber é se ainda pode sonhar com uma vida diferente. Acho que isso é importante de mencionar antes da parte técnica, porque a parte técnica sozinha nunca responde o que está sendo, de fato, perguntado. Então vamos lá.
A resposta objetiva é não, idade não é barreira legal para a aviação comercial e praticamente nenhum país estabelece uma idade máxima por lei para exercer a profissão, mas seria ingênuo ignorar a existência de alguns filtros não oficiais (sociais, estéticos, culturais) que ainda pesam bastante em alguns processos seletivos.
Além disso, algumas companhias, principalmente as grandes do Oriente Médio, trabalham com um modelo muito centrado na imagem e a tripulação funciona quase como um cartão de visitas da marca. Apesar disso, muitas companhias europeias e norte-americanas caminham já há algum tempo no sentido oposto, valorizando perfis mais maduros porque perceberam que experiência de vida e estabilidade emocional podem ser ferramentas valiosíssimas dentro de um avião. No Brasil a situação é mista; a preferência continua sendo, majoritariamente, por candidatos mais jovens, mas a aviação nacional tem aberto cada vez mais de espaço para trajetórias diversas e a idade vem deixando de ser automaticamente um obstáculo.
Uma transição de carreira exige preparo, é bom avisar. Você vai precisar estudar, melhorar o inglês se ainda não falar bem, entender as exigências de cada companhia e de cada país, preparar o currículo, encarar processos seletivos que às vezes são injustos e quase sempre extremamente cansativos e, no caso da aviação, exige também disposição para uma mudança brusca no seu estilo de vida e rotina (aliás, diga adeus à ela).
O caminho não será fácil (mas também não é impossível) e você provavelmente vai ouvir, em algum momento, que está velha para isso (talvez até mesmo de pessoas próximas), mas também vai descobrir que existe espaço e que muito do que parecia impossível era só um filtro antigo de uma indústria que está se atualizando.
Lembre-se: seu conhecimento e experiência de vida são o seu forte e candidatos que vêm de outras carreiras (principalmente atendimento, saúde, educação, turismo, hotelaria) costumam trazer consigo habilidades que um tripulante de vinte e dois anos ainda vai demorar anos para construir.